Opinião

"Só ouço falar em mudança. Mas vocês têm que ver que essa novidade eu não conheço, não domino. O futuro pode ser muito bom, mas eu não sei se lá tem lugar pra mim."

A frase é da secretária do Dptº de Vendas de uma empresa, e sintetiza o sentimento de muitas organizações.

Agilidade na percepção e introdução de mudanças virou questão de sobrevivência para as empresas, mas os processos geram angústia interna, que por vezes leva à imobilidade. Estão sendo questionados valores existenciais. "Na mudança, eu não sou mais uma boa secretária?"

Qual é o referencial? Não é um processo com início, meio e fim, compreensível para mentes de raciocínio linear. Ao contrário, o desafio é redescobrir a realidade a cada instante. A nova referência é a ausência de referências.

A chave estaria num processo de aprendizado. As organizações precisam aprender juntas. Mas de novo a referência se perde, pois aprendizado, visão sistêmica e questionamento estão dissociados. O desafio é reaprender como aprender.

A referência de escola grita ao contrário. As crianças de classe média tem "agendas lotadas" de cursos e atividades que em tese representam o "passe" para um futuro no mercado de trabalho. Mas não aprendem o que é básico, a possibilidade de encadear realidades, de interferir em contextos, criando raciocínios originais. Não aprendem a ser criativas.

Então é hora de mudar - diz o memorando - vamos trabalhar em times, resolver questões interdepartamentais, ou discutir a criação de novos modelos organizacionais. O sentimento latente é a desconfiança.

Mais que a premência de mudar, o desafio é aprender a deixar fluir o criativo, adquirir coragem de verbalizar esse criativo antes pouco ou nunca estimulado. Redefinir a empresa, os papéis, os processos e educar para transformar a realidade. Desenvolver competências que superem o técnico e o conhecimento segmentado, voltadas para a multidisciplinaridade e a visão sistêmica da organização.

A mudança só permeia comportamentos se ganha o emocional, se a energia da equipe se direciona para a cumplicidade das novas idéias. E neste contexto se insere uma poderosa ferramenta, a comunicação.

Mudança emocional prescinde de rituais. Não é à toa que os indivíduos fazem festa de casamento, formatura, batizado. São processos de conscientização e mudança interna. Nas empresas, quase nunca se ritualiza o momento de mudança.

Muitas organizações apenas enviam memorandos às equipes. Existe informação, mas não comunicação, que possa interferir em pré-conceitos, sentimentos, atitudes e comportamentos.

A comunicação imprime harmonia e eficiência aos processos de mudança, mas principalmente pode interferir em sua continuidade. E as atividades de marketing fundamentam a conquista de mercado, dentro da organização, para novas reflexões, idéias e atitudes.

Uma estratégia de comunicação interna, que lança o "produto mudança", nos moldes de uma campanha publicitária, tem influência decisiva na compreensão e assimilação de processos.

Como numa ação mercadológica para lançar um produto de consumo, é necessário iniciar o conhecimento do "mercado interno" através de sondagens e pesquisas.

Com que perfil de público iremos nos deparar? Existem nichos? Resistências? Quais são seus anseios, expectativas, histórico? Existem ações prévias que possam ser bases de aprendizagem? Quais os possíveis fatores de resistência ou motivação? E os objetivos, em que tempo?

É necessário determinar um foco para a comunicação. E criar rituais para a mudança através de eventos diferenciados, peças de comunicação, brindes conceituais que auxiliem na internalização do tema, conceitos que sintetizem a compreensão da mensagem e o uso criativo das ferramentas e veículos de comunicação mais adequados a cada público.

Em algumas organizações um teaser evidencia o momento novo, em outras é importante um evento, há casos em que a reunião em grupos é a melhor maneira de iniciar a sensibilização.

Como numa campanha publicitária, a abordagem acontece pela via pertinente da inteligência, nunca associando ao infantilismo. O brasileiro, de todas as classes sociais, assiste e tem como padrão gráfico uma das melhores TVs e propagandas do mundo. Rejeita o componente infantil, muitas vezes associado à comunicação interna e a falta de apuro gráfico.

A comunicação democratiza o acesso à informação, já que trabalha com signos, gerando compreensão do fato e portanto a possibilidade de interagir com ele.

Que contexto leva a organização a refletir sobre mudança? Qual é o novo foco, para onde todos devem olhar? O que se espera das pessoas? Que ferramentas serão disponibilizadas? O que a organização ganhará em mudar?

Só é possível a uma idéia significar sinergia na organização se a equipe se tornar cúmplice, se essa idéia move os olhares para um mesmo foco.

Produtividade, eficiência, vantagem competitiva, qualidade, rentabilidade são palavras antigas, usadas hoje com nova significância. Porquê o contexto mudou.

Outras ferramentas de comunicação podem auxiliar na implementação de processos de gestão, como a promoção e mesmo o merchandising.

A transformação do sistema de valores só é possível se estiver latente em atitudes. Se é desejável estimular inovação, então é necessário criar rituais para premiar e instigar o orgulho da equipe que teve uma nova idéia, pensou sua rotina criticamente, o que pode ser feito através de uma ação promocional.

Se determinado setor mostra-se mais resistente, uma ação localizada pode surtir resultado, com materiais de merchandising ou marketing direto.

São estratégias de comunicação que conduzam equipes à mobilização e conscientização para a necessidade de se transformarem em protagonistas do processo. Quando se percebem respeitadas, as pessoas reagem vestindo sua melhor roupa.

Assim como, quando recebemos um convite pomposo de casamento, nos preparamos para o evento, compramos presentes, agendamos com antecedência e buscamos a roupa que nos faça parecer adequados para prestigiar os noivos.